A agulha de tricô como uma importante ferramenta de transformação

por Cristina Hentschke

Um projeto que faz as avós pensarem foram da caixa. É com essa máxima que os portugueses Susana António e Ângelo Campota criaram o inovador “A Avó veio trabalhar”, em Lisboa. A designer de 37 anos e o psicólogo de 34 enxergaram no design a ferramenta perfeita para dar um novo significado para a terceira idade e derrubar muitos mitos que cercam o envelhecer.

A ideia – que hoje agrega loja, workshops, atelier de produtos artesanais e “ideias feitas a mão” – nasceu de uma insatisfação de Susana. Ao graduar-se em Design de Produto na Itália em 2004, concluiu que gostaria emprestar suas ideias e talentos para causas sociais e não para grandes empresas. De volta à Portugal, trabalhou como voluntária em um lar para idosos e foi lá que teve uma ideia, que se concretizaria anos depois.

“Sempre tive carinho pela comunidade idosa. Cresci debaixo da máquina de costura da minha avó”, conta Susana, que percebeu no grupo com que trabalhava um desabrochar diferente através das técnicas de trabalhos manuais. O bordado e o tricô formariam então a trama ideal para uma nova história a ser contada. Uma história em que avós usam batom vermelho, camisetas divertidas, vão a festivais de rock e são protagonistas de suas vidas.

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Desde lá, o projeto veio tomando forma, inicialmente, de forma tímida, com workshops pontuais. Depois de ganhar alguns importantes financiamentos e concursos, cresceu e apareceu. Em 2013, Susana se juntou à Ângelo para criar a “Fermenta”, associação que trabalha para a inovação social através das ferramentas do design. Nasceu então a “Avó veio trabalhar”, que começou com uma pequena sala e hoje ocupa uma loja-atelier em um dos bairros mais movimentados da capital portuguesa.

Na Rua Poço dos Negros,124, não são os charmosos cafés com azulejos coloridos e nem o famoso bonde amarelo 28 que por ali passa que chamam a atenção. Nesse endereço, destaca-se uma vitrine com produtos feitos com carinho de vó e um entra e sai de senhoras animadas com linhas, novelos de lã e muita energia.

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É ali que mais de 68 senhoras aprendem novas técnicas manuais (aliando o tradicional com um olhar mais contemporâneo), ministram e assistem palestras, encontram novas amizades e encontram a si mesmas. A “Avó”, além de oferecer um espaço de trabalho e de capacitar essas senhoras, é a porta de entrada para novas experiências. O projeto promove diversas atividades, como viagens (para workshops e eventos) e até mesmo participação em festivais de músicas, como foi o caso do “Bons Sons”, que permitiu a uma avó de mais de 80 anos curtir – na primeira fila – um animado show de rap.

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E foi passando pelo espaço criado por Ângelo e Susana, que a brasileira Patrícia Soldatelli -55 anos – mudou totalmente o percurso da sua vida. Patrícia estava de férias em Lisboa e resolveu entrar na loja para perguntar o que faziam ali. Cancelou sua passagem de volta e, desde lá, já se passaram seis meses vivendo em Portugal, onde se diverte com o projeto pelo qual se apaixonou e se identificou totalmente. “A senhora está no céu”, afirma ela com um alto astral cativante, All Star nos pés e um sorriso de quem sabe aproveitar a vida. Uma das amigas de Patrícia, é a portuguesa Helena, 57 anos, avó que entrou para o time bem no começo do projeto e se diz muito feliz por ali poder fazer o que gosta e sentir-se valorizada.

Ângelo e Susana também estão satisfeitos com a dimensão que vem tomando o projeto e com o tanto de vidas que têm transformado. Muitas famílias indicam a “Avó” para seus familiares mais idosos, identificando ali um local positivo para que os mesmos não só ocupem seu tempo, mas tenham uma experiência rica. “É um lugar para que se sintam em casa”, conclui Ângelo.

A boa nova é que uma doação de 10 mil euros da Fundação Calouste Gulbenkian vai permitir à Avó que continue mais um bom tempo na loja da rua do Poço dos Negros. A partir daí, os sócios já pensam em transformar o projeto cada vez mais em negócio, o que tem tudo para dar certo. Se de um lado a jovem dupla tem ideias criativas, do outro não falta um ponto-chave para consolidá-las: experiência de vida.


Para saber mais, acesse a página do projeto no Facebook.

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