O Cafe Art foi criada em 2012 com a missão de re-conectar moradores de rua com a sociedade através da arte. A empresa tem apenas dois funcionários, os sócios Michael e Paul Ryan, que construíram uma grande rede de colaboração entre moradores de rua, instituições de caridade e cafes em Londres e pelo mundo. 

Eles não recebem financiamento e tentam evitar passar qualquer imagem de ‘concorrente’ para as milhares de instituições de caridade existentes na Inglaterra. Estabelecendo uma relação de ‘win-win’ buscam parceiros que sejam agentes ativos no processo. E hoje eles contam com o apoio de importantes parceiros, como o Homeless Link, Royal Photographic Society, catedral St Paul, o mercado de Spitafields, FujiFilm UK, diversas instituições de caridade, voluntários e colaboradores internacionais. 

Um dos projetos que ilustra bem a dimensão desta rede se chama My London, realizado com o apoio do da Royal Photographic Society e Homeless Link. O projeto consiste em um concurso de fotografia, em uma exibição e na produção de um calendário. 

Nos grupos de arte realizados em instituições de caridade, os participantes recebem máquinas fotográficas descartáveis e são apresentados a este novo universo da fotografia. Eles são convidados a registrar através das fotos a sua perspectiva das ruas da cidade. Um juri realiza a seleção das fotos vencedoras que são impressas, e se transformam em um calendário que é vendido a 20 libras. O dinheiro das vendas retorna para os exibidores, artistas, e para o projeto. 

Os resultados aqui são positivos e mútuos para todos os envolvidos nesta rede social, fazendo com que desta forma, este sistema se autossustente. No final de 2015, uma edição do mesmo projeto aconteceu em São Paulo, onde durante dois dias, moradores de rua, registraram a sua imagem da cidade. 

A criatividade é o agente transformador de vida nesta comunidade – para aqueles que criam arte e para aqueles que criam novas realidades. Eu bati um papo com os dois sócios que contam, de coração aberto, um pouco mais da história por trás da Cafe Art. 

O que motivou a criação da Cafe Art?  

Michael: O Cafe Art surgiu de uma paixão e uma crença em um senso de independência, realização, pertencimento e confiança, necessários para permitir que uma pessoa, independentemente da sua raça, credo, sexo, possa enfrentar barreiras ou obstáculos em suas vidas. Tendo voluntariado em um abrigo para moradores de rua por alguns anos, eu nunca pude deixar de ver a esperança nos olhos daquelas pessoas, apesar de muitos deles irem perdendo seus bens materiais ao longo dos anos. As vontades e necessidades de moradores de rua, são as mesas que as minhas e que as suas. Assim, Cafe Art surgiu, para ajudá-los a ganhar de volta a esperança e visão, exclusivamente a partir do próprio talento e trabalho deles. E isso é algo que esperamos, de alguma maneira duradoura e tangível poder ajudá-los em um primeiro passo para reconstruir a sua jornada na vida.  

Como a criatividade se faz presente no modelo de negócio da empresa? 

M: A arte como a música, atravessa fronteiras, línguas e diferenças culturais. Poderia ser subjetivo, mas como dizem, uma imagem vale mais que mil palavras. E ainda é mais significativo quando a arte é feita por as pessoas que são menos afortunadas na sociedade de hoje. Por exemplo, alguns compradores veem a arte como um objeto muito bonito, comovente e também como uma poderosa narrativa- onde os artistas podem expressar toda sua raiva, frustração, assim como  esperança e otimismo – tudo em um desenho. Acaba sendo uma relação de ‘ganha-ganha’ para todos os envolvidos. Como por exemplo, quando você compra um pintura ou uma fotografia, e isto passa a simbolizar voce como pessoa também, e tem um impacto direto e positivo sobre o artista. A criatividade, que envolve o coração, mente e alma, tem sido documentado como valor para aqueles que se tornaram moradores de rua. 

O que você acredita que conecta essas diferentes pessoas e organizações em torno dos projetos desenvolvidos?  

M: O Cafe Art não tem agendas secretas. Desde o dia em que foi criado, a sua finalidade foi sempre a mesma: reconhecer o talento de moradores de rua em todas as instituições de caridade em Londres (seja ela grande ou pequena). Nós também tomamos a decisão consciente de não ser financiado por nenhuma instituição. Isto é para garantir algum senso de justiça entre os parceiros envolvidos. Por exemplo, quando temos uma exposição, tentamos garantir que as obras de arte em exposição venham do maior numero de instituições de caridade possível. Convidamos o maior número de instituições de caridade para participar no concurso anual do calendário My London. Assim, construimos essa confiança e somos uma bem valia também para os próprios programas internos das instituições.

Como foi o desenvolvimento do projeto “Minha São Paulo”? 

Paul: O projeto Minha São Paulo foi um enorme sucesso. Dos 100 participantes, muitos nunca tinha usado uma câmera antes. As histórias de vidas das pessoas indicam que grande parte vivia nas ruas ja ha muito tempo. Eles se mostraram muito apaixonados pela sua cidade – São Paulo – como qualquer outro poderia ser. As fotos são muito bonitas. 

Captura de Tela 2016-06-29 às 12.20.41

Pés no chão por Rudnei Barbosa . Rudnei tomou esta foto de seus pés e sandálias na rua. O título da foto , sugerido pelo próprio fotógrafo , faz alusão ao povo brasileiro , sempre sonhando , mas ele salienta que , para alcançar seus objetivos, você precisa deixar de lado as ilusões e colocar os pés no chão. Rudnei , 45, nasceu em São Paulo, tem vivido nas ruas por 30 anos.

A missão do Cafe Art é empoderar os moradores de rua através da arte. Como vocês percebem os impactos do trabalho de vocês? 

M: O sucesso pode ser medido de várias maneiras, por exemplo por meio de pesquisas, questionários realizados com parceiros e as pessoas fisicas que apoiam. Mas uma coisa em que somos bem determinados aqui no Café Art é assegurar que os artistas sintam que eles realmente fazem parte da organização. Por exemplo, adoramos que os compradores das obras de arte possam se encontrar com os artistas cara-a-cara, sempre que possível. Isto faz com que o processo de compra seja muito mais especial, pois permite uma partilha de histórias e uma vivencia entre dois estranhos cujos caminhos de vida talvez nunca se encontrassem, devido a suas historias de vida. Mas, através da arte, houve esta aproximação. O artista se sente ‘valorizado e capacitado’ e e sua própria arte (e não de outra pessoa) que tornou isto possível. Sabemos também que os compradores se sentem felizes pela experiência a partir dos feedbacks que tivemos. 

Para ver e se inspirar mais:

Cafe Art

Minha São Paulo

Outros projetos da Cafe Art

Conheça os artistas 

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