KesselsKramer

Hibridismo criativo de outro tempo

por Laura Coelho

Ao entrar nesta galeria de arte de Hoxton, em Londres, descobri uma livraria de livros independentes que é também uma agência de comunicação. A ordem não é exatamente esta, mas poderia ser. KesselsKramer é uma agência de comunicação independente holandesa com um modelo de negócio muito interessante.

A agência foi criada por Erik Kessels e Johan Kramer em 1996. Foi uma das primeiras na Europa a ser liderada por um time composto de “apenas criativos”, e muita gente se perguntou se isso poderia dar certo. Além desta ruptura, alguns valores bem particulares dos criadores foram introduzidos na cultura da agência – que desde a fundação edita e publica seus próprios livros e se envolve na curadoria de exposições de arte.

Ao assumir cada vez mais seus projetos em paralelo e o processo híbrido nas suas próprias histórias de vida, Kessels and Kramer fizeram da KK uma empresa reconhecida por transitar em diferentes territórios, explorando assim diferentes possibilidades para os projetos que desenvolvem. Hoje eles têm sede em Amsterdam, Londres e Los Angeles, mas mantêm um formato ainda enxuto com uma equipe de aproximadamente 50 pessoas. A sede de Londres, a KK Outlet, foi criada em 2007 com o intuito de mesclar ainda mais diferentes multi-funcionalidades. O espaço recebe mensalmente exposições de artistas independentes, se transforma em uma livraria e, no subsolo, a agência de comunicação fertiliza ideias. Sobre o ser multi, Erik Kessels diz:

“Quando eu tinha 11 ou 12 anos eu já fazia diferentes coisas. Eu nunca quis me limitar a uma coisa. Para os clientes acho que isso é algo que beneficia também, pois a solução de um problema pode ser feita de diferentes maneiras”.

Estes diferentes savoirs-faire da empresa favorecem também para que cada projeto possa ser concebido com uma visão de start-up. Um projeto da KK que transita transversalmente nas diferentes disciplinas da empresa é a campanha I Amsterdam. O projeto de desenvolvimento da marca da cidade iniciou no campo da fotografia. Em parceria com a Amsterdam Partners, o projeto convidou 22 fotógrafos para tirar fotos da cidade resultando no livro I Amsterdam; um portrait da cidade e de seus cidadãos; e em uma exibição que percorreu o mundo afora. Uma escultura tridimensional gigante – que diz I Amsterdam – foi instalada no Museumplein, e atrai até hoje milhares de pessoas. A campanha simplesmente redefiniu a imagem da cidade, dando valor à sua diversidade cultural e qualidade de vida dos moradores.

“É na transgressão dos limites entre os gêneros e as categorias, na exploração do que está fora dos limites, nas transversalidades e nas hibridizações, que a arte manifesta, hoje em dia, sua vitalidade e sua resistência”. (BERTHET, 2002, p. 8).

No que diz respeito a dimensão estética do conceito de hibridismo, Dominique Berthet diz que estas misturas são tão originais quanto contestadoras. Assim, transgredindo divisas, nos transformamos. Através da exploração da forma e do processo, a KK parece se autodefinir. Me pergunto se são os projetos que tornam este espaço híbrido, ou se é o espaço híbrido que define a natureza dos projetos.

A exposição em cartaz atualmente na KK de Londres traz Laura Callaghan, uma jovem ilustradora irlandesa. Chamada “Aspiracional”, a série que mistura aquarela, serigrafia e impressões, questiona sobre as aspirações da realidade virtual quando aplicadas na vida real; Outra entre as diversas campanhas de comunicação para a instituição holandesa Women Inc., chamada I am not here right now, instiga a sociedade a refletir sobre a divisão das tarefas domésticas entre homens e mulheres. A KK criou peças de comunicação e uma campanha no rádio chamando mulheres para pararem para refletir por um momento sobre onde a atenção delas estava (onde está presente e porquê); Os livros publicados pela KK são escolhidos e desenvolvidos exclusivamente pelo núcleo criativo da empresa. Projetos fotográficos, histórias ou revistas, os títulos das publicações são no mínimo incomuns. ANONYMUS, por exemplo, reune fotos antigas colecionadas e editadas posteriormente, e questiona se os nossos rostos são mais importantes que os nossos corpos quando se diz respeito a nossa persona social.

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Imagem do livro ANONYMUS

Independente da forma, encontramos um posicionamento disruptivo composto de valores sólidos. Há uma sensibilidade em incitar um engajamento crítico do outro para com a sociedade – que reflete nos seus diferentes projetos e atuações. Aqui, o hibridismo criativo ultrapassa o próprio conceito contemporâneo – de atender às demandas do mercado. Projetos e espaço se compõem mutuamente. O processo e os projetos são híbridos. Em Publicidade, Literatura ou Artes Plásticas, a KK faz com que a tensão de diferentes elementos inspire objetos culturais novos, o que ressimboliza constantemente e ‘o que” a define também.

Para saber, ver e se inspirar mais:

Referências:

  1. BERTHET, Dominique. Avantpropos. In: _____ (Org.). Vers une esthétique du métis- sage? Paris: L’ Harmattan, 2002.
  2. Entrevista com Erik Kessels na revista digital MiND

 

Imagem de @hiroshi_okamotoo

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